sábado, 9 de agosto de 2008

Alamoa - a fada rainha


Era Fernando de Noronha, em tempos longínquos, um lindo reino encantado de fadas.
2
Havia na ilha uma rainha-fada loira, de beleza deslumbrante. Seu palácio magnífico, situado no alto de uma colina verde, era um eterno deslumbramento.
Todos os dias, das manhãs ensolaradas, a fada-rainha de cabelos cor de ouro passeava pelos seus vastos domínios, que seu poder cobria de palácios, de primavera e flores. Nunca faltavam, pendentes das ramadas, a policromia das inflorescências e a abundância das bagas amadurecidas. A renda das espumas do mar era um bordado contínuo em torno da ilha, uma delicada teia que se fazia e se desfazia. Mas as quilhas das caravelas começaram então a sulcar e desvirginar as águas do Atlântico, além da linha do Equador. O Cruzeiro do Sul começou a ser avistado por olhos estrangeiros. O reino encantado, desencantou-se. Os palácios foram convertidos em massas negras de basalto e suas galerias foram transformadas em rochedos.
2
Mas a fada-rainha loira não deixou sua amada ilha. Seu palácio soberbo foi metamorfoseado no Pico e hoje ainda vaga pelos montes e praias da ilha. Por vezes, surge montada em cães selvagens que vivem nos altos montes, como o morro Francês e o monte Espinhaço do Cavalo, soltando longos e sinistros uivos. É a fada-rainha Alamoa, que vai passando! Todas às sextas-feiras, a pedra do Pico se fende, e na chamada Porta do Pico aparece uma luz. A fada Alamoa sai para visitar as redondezas. A luz atrai sempre muitas mariposas e também a todos que passeiam próximos ao lugar. Quando um desses se aproxima da Porta do Pico, vê uma mulher loira, nua, com o corpo coberto só pelos seus cabelos que descem quase ao chão.
Os habitantes de Fernando de Noronha chamam-na Alamoa, corruptela de alemã.
2
A Alamoa é uma fada que após a ocupação batava, no século XVII, resolveu vingar-se da invasão humana aos seus domínios. Aparece a qualquer passante incauto como uma mulher extremamente sedutora e o chama com uma voz quente e apaixonante. Todo aquele que não resiste a sua fascinação é levado até a Porta do Pico. Entretanto, quando o homem escolhido está crente de ter entrado em um palácio, para usufruir das delícias daquele corpo fascinante, a Alamoa se transforma de repente em uma caveira. Os seus lindos olhos, que tinham o brilho das estrelas, agora são dois buracos horripilantes. A pedra do Pico se fecha e o louco apaixonado desaparece para sempre. A angústia de seus últimos gritos ainda ressoará por alguns dias, escapando-se das fendas profundas do monte e indo misturar-se ao uivo dos cachorros selvagens e ao silvo dos ventos do sueste.
2
Alamoa, de acordo com os relatos é uma fada solitária que teve penetrado, sem o seu consentimento, o seu reino encantado. O homem ao perturbar a ordem e a harmonia das coisas, atrai para si a hostilidade da natureza, sendo assim, a linda fada ofendida com a atitude humana, pode metamorfosear-se em uma bruxa repugnante. A fada sabe o que é bom para ela e o que é bom para nós. Ela é o espelho de nossa alma, que pode ser bela ou feia, dependendo do nosso interior. Aceitá-la do modo que se apresenta, nos conduzirá para a grande realização de nós mesmos.
- Texto pesquisado e desenvolvido por Rosane Volpatto -

sábado, 2 de agosto de 2008

As Encantadas

As sereias são servas da Deusa da Morte (Perséfone) e foram encarregadas de levar-lhe almas. Este é o motivo pelo qual atraem marinheiros com o poder arrebatador de seu canto, levando-os à destruição nas rochas que se ocultam nas águas de seu recanto costeiro.
2
As Encantadas são Deusas-Sereias do mar e como tais, nos mostram o elemento destruidor negativo que pode se manifestar quando seguimos irrefletidamente intuições e inspirações. Isso nos parece familiar quando pensamos nos artistas e pessoas criativas que se destroem por darem ouvidos a essas vozes espectrais, deixando-se arrastar pelas "Sereias" que habitam a nossa psique. Já outros, entretanto, são capazes de usar a intuição de forma positiva e, por vezes, uma torrente de energias criativas parece derramar-se deles.
2
Várias tribos indígenas se espalharam pelas planícies e planaltos do Paraná. Diante da beleza de sua geografia, os índios não se contentaram em apenas admirá-las, queriam saber a origem das cachoeiras, rochedos, grutas, fauna e flora. Assim, com os recursos de sua cultura, seus valores e seu imaginário, surgiu a Lenda das Encantadas:


Contam os Caigangues do Paraná, que há muito tempo atrás, na Praia das Conchas, ao sul da Ilha do Mel, na Gruta das Encantadas, viviam lindas mulheres que bailavam e cantavam ao nascer do Sol e ao crepúsculo. Dizem que o canto delas era inebriante, dormente e perigoso para qualquer mortal. Se um pescador as escutasse, por certo perderia o rumo de sua embarcação, indo bater nas rochas e naufragar. Entretanto, certa vez, um índio corajoso e destemido aventurou-se a tentar se aproximar delas. Colocou-se à espreita no alto do rochedo.
Quando os primeiros raios multicoloridos de luz despontavam ao leste, o jovem começou a ouvir a suave e doce melodia proveniente do interior da gruta. E mulheres nuas, desenhadas de sombras, foram surgindo. À medida que as bailarinas alcançavam a boca da gruta, o canto tomava mais ênfase, mais intensidade.
Estranhamente o índio não adormeceu, justo o contrário, não desgrudou o olho do belo ritual. As misteriosas moças eram dotadas de tão rara beleza, nuas e com longos cabelos de algas, que o intruso acabou fascinado por uma das dançarinas, a que tinha os olhos cor de esmeralda. Tal era o seu fascínio, que despencou do rochedo, ganhou aos trambolhões a prainha, metendo-se de permeio na farândola, acabando de mãos dadas com a sua escolhida. Declarou-se apaixonado por ela, e confiou-lhe o seu desejo de permanecer a seu lado por toda a eternidade. A bailarina alertou-o de que para ficar com ela teria que morrer e ele reafirmou o seu desejo de ficar com ela por toda a eternidade.
- Vem, então, meu doce amor... A fonte da vida nos chama... partamos...
Mãos entrelaçadas, ao canto fúnebre das dançarinas, os jovens entraram águas adentro e quando desapareceram, já o sol era vitorioso.
As Encantadas sumiram nas águas profundas, para nunca mais aparecer
. E, desde então, a gruta está solitária, e nela ecoam se quebram os ecos dolentes e eternos do mar.
2
No próximo sábado, a Lenda da Alamoa – a fada rainha.
Bom final de semana!